8 de novembro de 2013

Visão do Paraíso


          Todas as sextas feiras faço um longo percurso até o CAP'S onde faço terapia. No caminho muitas vezes me deparo com situações sutis ou totalmente diferentes. Existe sempre um sistema de percurso já decorado pelo meu cérebro. O mesmo passeio nessa rua ou vou passar por esse lado pq sei que mais a frente vai ter alguma sombra. E na parte final existe um morro enorme pra subir e em seu topo fica um cemitério, o Cemitério Municipal. Apesar de ter sido muito medrosa na infância, hoje em dia não carrego receios relacionados a cemitérios e essas coisas. 
          Sempre gostei de observar o contraste dos túmulos que aparecem acima do muro com as flores de plástico colocadas no dia de finados do ano anterior e o céu azul, límpido e com algumas nuvens lá e cá. A subida era tortuosa, mas quando chego nesse ponto do trajeto me soa mais tortuoso o percurso exato da minha casa até o topo do morro. Como se a partir dali começasse a fluir a poesia. 
           
          Numa sexta feira dessas, ao chegar ao topo daquela subida tortuosa, o sol estava escaldante e como sempre olhei pra porta do cemitério esperando ver o comum, e através desse comum encontrar a poesia. Maior foi a minha surpresa ao ver, esperando pelo caminhão de lixo, um sofá velho, gasto com o assento virado para a descida do morro. E fazia tempo que eu não via tanta poesia. O contraste de cores, a situação em si. É estranho como tudo contribuía para uma plenitude nova. E fiquei feliz por estar no lugar certo, na hora certa. Esse tipo de coisa contribui muito pra minha visão sobre as coisas. 
           A poesia engrandece o coração e reflete amor aos olhos. 
           Meus olhos me disseram muita coisa hoje. 
          
        “O céu está todo nublado hoje, mas as flores e as formas dos túmulos estão destacando-se mais. As flores estão com cores tão fortes! Você percebe esses detalhes? 
         Depois da chuva o ar fica sempre mais limpo e olhe como aquelas montanhas ao fundo estão numa cor incrível! Um azul meio acinzentado, meio embaçado. Elas estão límpidas. 
           O verde claro do pasto está vivo e destaca-se com o verde escuro dos cafezais ao lado. 
          A criança loira com tranças e sorriso banguela mais a frente ri a risada mais gostosa. 
        E por causa da mesma chuva as flores que estavam abertas semana passada hoje estão fechadas e caídas, tombadas. Mas elas continuam vermelhas.”. 
           
          Minha boca sorri apesar do coração palpitante.





2 comentários:

  1. Lu, q texto lindo! Você escreve tão bem.

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    1. fico feliz que tenha gostado! Sua opinião é extremamente importante pra mim.
      beijos

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