30 de junho de 2015

O dia em que encontrei um livro de poesia no ônibus*



Fonte: Tumblr


        Cheguei atrasada e com frio no ponto de ônibus. Na pressa de sair esqueci o celular e o casaco que havia separado pra ir pro trabalho. O dia estava cinza e pairava no ar algo triste, típico de um dia nublado. Assim que entrei no ônibus, meio sonolenta escolhi um assento perto da janela e ao me recostar percebi algo entre o assento e a janela do ônibus. Era uma espécie de caderno feito à mão. Suas folhas pardas eram costuradas com uma linha fina na cor azul. Na sua capa um desenho simples, aparentemente colegial, de uma criança com uma pipa na mão. Aos pés da criança estava escrito numa letra trêmula “Livro de Poesia”. Passei a ponta dos dedos sobre as letras e senti a profundidade das palavras escritas com a força de quem está aprendendo desenhar palavras.
         Abri a primeira folha e encontrei um pequeno texto com a provável intenção de prefácio. Li-o.

“Me encontraste. 
Me olhaste. 
Antes de continuar, 
desarma-te de tudo o que é mundano. 
Não deixa que ele te impeça de seguir(-me) adiante. 
O que vais encontrar? 
De tudo (que vivi) um pouco (de respiro*).

*respiro= cansei da palavra sentimento. Parece ter se tornado banal.”

          Respirei profundamente, já assustada com intensidade das palavras e de como elas me pegaram desprevenida. 
         A partir de então, com o passar das folhas, conheci relatos sobre uma vida laboriosa e humilde, de fé e de muitos enfrentamentos, descrito em poemas simples. Em um ou outro ainda podia se encontrar alguns rabiscos mostrando que ali também houve enfrentamentos de palavras. Cada palavra tinha um impacto profundo sobre mim. Ao fim encontrei um ultimo texto:

“Caminhaste ao meu lado, dividindo comigo o peso da existência.
Agora, carrega-me contigo aonde fores
para que contigo eu possa dividir o peso do viver e do respirar.
Ainda não sabes quem sou,
se homem ou mulher,
mais importa é saber que contigo estarei a partir de agora
em forma de palavras e de respiro.
Solta pipa
Respira, criança.
Vive.

        Uma lágrima caiu e rapidamente limpei-a. Meu ponto estava mais a frente e parecia que havia viajado outros tempos e galáxias. 
         Meu avô, escritor desde muito jovem, disse-me  antes de começar a ler a estória que viria a ser a minha preferida: “Se prepara que depois dessa estória você não será mais a mesma, menina. Se prepara.” Eu não entendia porque ele sempre insistia em dizer isso, mesmo repetindo a estória quase todas as noites. Então perguntei-o: “Avô, porque sempre me diz pra eu estar preparada pra essa estória se sempre a lê pra mim. Não tem como me mudar mais. Já a sei de cor.” Então meu avô respondeu: “ Se prepara, um dia você entenderá”. 
           Eu entendi.



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* Este texto faz parte do Projeto Escrita Criativa

2 comentários:

  1. Amei a criatividade e desejei ser a narradora que encontra este livro no ônibus. Seu texto, sem dúvida, é um presente a quem o lê! Fico feliz que você o tenha compartilhado conosco e que ele seja fruto de um projeto tão especial quanto o Escrita Criativa. <3

    Um beijo,

    Algumas Observações
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    Teoria, Prática e Aprendizado

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    1. Muito obrigada, Fê! Seu comentário me trouxe muita felicidade!
      Um beijo grande!

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