3 de janeiro de 2013

"Cuidado com ela, general!"




       “Naquela noite, o monstro do ciúme, que Iago com tanta habilidade despertara, não deixou Otelo dormir. As palavras que Brabâncio lhe dissera após reunião do Conselho, na longínqua noite de sua partida, deixaram de sussurrar no fundo da memória para soar agora em seu cérebro como um grito estridente: “Cuidado com ela, general!”. E completavam-se perigosamente: “Assim como enganou a mim, que sou seu pai, pode muito bem enganar o senhor, que é apenas seu marido”. O beijo que Cássio pousara na mão de Desdêmona, quando se ajoelhara à sua frente no jardim, transferiu-se pouco a pouco para o braço, para a face, para a boca dando à cena o significado de um encontro de amor. A saída abrupta do rapaz ganhava a importância de uma fuga, e o tenente transformava-se no criminoso que tenta desaparecer do local do delito com medo de ser apanhado em flagrante. A mentira de Desdêmona parecia-lhe constituir a prova moral do crime. 
       “Desdêmona...”, suspirou para si mesmo, olhando para a mulher deitada ao seu lado. “Será possível que exista em você um demônio, como sugere seu nome?” Altas horas da madrugada, incapaz de permanecer imóvel enquanto sua alma se debatia num mar de dúvidas, Otelo esgueirou-se para fora do leito e saiu do quarto, sem fazer barulho. Precisava andar, ainda que fosse no próprio castelo. Seus passos arrastados conduziram-no ao salão, onde duas tochas ardiam em ambos os lados de um imenso espelho emoldurado de ouro, lembrava da passagem faustosa dos antigos soberanos franceses. Sem perceber o que fazia, o governador de Chipre aproximou-se da própria imagem e deteve-se. De imediato, sua mente perturbada o fez ver, refletida no cristal, ombro a ombro consigo mesmo, afigura de Cássio, tão nítida e viva como se o rapaz ali estivesse de fato.” 

(Fragmento de Otelo, O Mouro de Veneza Willian Shakespeare – Cap XVI – Delírio)

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